Era cerca de meio-dia, acabava de sair de uma reunião com um cliente e estava predisposta a regressar ao escritório. Esperando pelo metro, tentava distrair-me lendo tudo o que se me punha à frente, desde anúncios de saldos e publicidade, bem como o mapa das estações do metro tantas vezes por mim frequentadas. Quando já tinha lido tudo, dirigi-me para um ecram de televisão do metro e dispus-me a ver as noticias. Coincidia com a previsão do tempo na região, tendo permanecido com os olhos bem abertos.

-“… durante a manhã presenciaremos pespontos de nuvens…” ”…pinceladas de sol caracterizarão o dia de 3ª feira…”

Pespontos de nuvens? Pinceladas de sol? Sem duvida que o meu primeiro pensamento é “quem é a alma” que escreve os textos destas noticias. Atrevi-me a deduzir que o possivelmente o redactor estaria especialmente criativo, talvez pelo frio e consequente congelamento das suas ideias. Ou pelo contrário, teriam deixado ao estagiário inovar com um estilo linguístico as suas noticias.

Em qualquer caso, tanto os “pespontos” como as “pinceladas” fizeram-me pensar na grande importancia de saber utilizar uma linguagem estilos adequados a cada contexto e canal de comunicação, pois em função dele, a mesma mensagem pode conotar-se como rigorosa e profissional ou como uma piada.

Diariamente estamos expostos a multiplas mensagens escritas, no meu caso particular, relacionadas com curricula, cartas de apresentação, e-mail de convocatórias para entrevistas… São formas muito ágeis de conhecer e valorizar, pelo menos numa primeira instância, o candidato, o que, por sua vez, podem converter-se numa via muito sencível e imediata de desconsiderar candidaturas. Não se trata apenas de brilhar com uma listagem de títulos, cursos e qualificações, nem de enumerar todas as funções e responsabilidades que em apenas um posto és capaz de desempenhar. Trata-se, além disso, de saber transmitir, através de texto, o seu nível de interlocução, a sua capacidade de adaptar a linguagem em cada momento e, muito especialmente, conseguir transmitir uma imagem de profissionalismo que, sem nos darmos conta, se pode vislumbrar em apenas duas linhas de um papel. É melhor pecar por excesso, quanto ao grau de formalidade de um estilo, que passarmos por demasiado próximos e confiantes. É melhor usar uma linguagem simples mas correcta, que por querer mostrar uma grande riqueza de vocabulário utilizemos palavras, não se adequam ao contexto. É preferível ser concreto e parco no nosso discurso, do que se estender tanto que no final não se responde à pergunta.

Como dizia o pai de uma amiga, apesar de por vezes soar um pouco duro: “assim como te vêem te vão tratar”. Neste caso me atreveria a dizer que “assim como me lêem, me vão valorizar”.

C.Díez

Add comment


Security code
Refresh